Feliz Natal
Ele nunca foi de se importar com muitas coisas. Nunca gostou de muitas pessoas, e despereza a maioria delas. Na verdade, quase todas. Não teve filhos, não gostava de crianças e ninguém seria mazoquista o suficiente para se relacionar com alguém como Gregor.
Talvez aquela não fosse a noite mais fria do ano, mas era a mais cruel de todas. Vagando pela rua 7, encontrou um único bar aberto em um raio de 8 quadras. A decisão de dizer o que pensava o tornara alguém cruel e impiedoso. Por ser alguém mais dotado de certa racionalidade e realismo, achava que podia ser arrogante por direito com todos. Esteve errado várias vezes, mas sua auto-suficiência era incômoda e agonizante e o impedia de admitir várias vezes; ele tinha que viver com isso. Dentre a porta rangendo e o silêncio pertubador, Gregor sentou na última cadeira em frente ao balcão, onde a iluminação favorecia o ângulo esquerdo de sua face e camuflava os sintomas de sua insônia do mês passado. Pediu uma dose de café – havia parado com o álcool desde o último incidente – enquanto observava as luzes vibrantes e coloridas do pinheiro de pequeno porte bem próximo ao seus olhos cansados. A garçonete, que trocara a noite em família por uns trocados a mais no fim do mês, resmungou:
- Nem sempre a solidão é uma boa companhia.
Gregor olhou a sua volta, procurou um outro possível interlocutor para o monólogo da moça.
- Você está falando comigo?
- Na verdade não.
Virou as costas e continuou a contar o dinheiro do caixa. Gregor deixou uma nota embaixo do copo amarelado e retornou a sua odisséia de volta ao seu próprio calabouço. Terminou a noite com um telefonema no meio da noite. Mas era engano.
(In) Concreto
Em uma cidade de 12879 habitantes, você tinha duas opções: levar uma vida medíocre e alienada ou se fechar em um mundo recluso e próprio. E não havia meio termo para Anita. Na verdade, não havia nada além de seus cadernos amarelados e uma única sala de exibição de 54 lugares. E ela criava. Criava lugares, histórias de amor, personagens fantasmas e versos curtos. Criava quase tanto quanto respirava. Suas criações tinham vida própria: eram seu legado eternizado deixados no fundo de uma gaveta. Até a luz da lâmpada incandescente era uma máscara crucial em seu teatro de marionetes. Anita vivia rodeada apenas de si mesma. Achava que tudo que fazia era uma incrível arte. Mas a maioria era descartável, seus finais eram sempre drásticos demais. Anita não se tornou uma memória ilustre nem foi eternizada, mas seu nome continuou no cimento mal acabado da esquina por um bom tempo.
Sinfonia dos Pardais
D’entre folhas secas
E um céu d’agosto sem cor
Interrompia a orquestra de buzinas,
A sinfonia sem maestro,
Um gorjeio sem pudor…
D’entre penugens enferrujadas
Uma prece silenciada,
Quase sem louvor,
Talvez saudando aos animais…
Não creio, não é possível
Que aquela seja uma canção dos exilados,
Uma canção dos pardais!
Imparcialidade é para os fracos
O era para supostamente ter apenas uma função informativa ou de entretenimento, virou nos últimos dias, quase um sinônimo de sensacionalismo e baixaria. Praticamente a guerra fria da televisão brasileira, a disputa por audência entre a Rede Globo e a Rede Record vem sendo uma vergonha, independente de que lado você está posicionado. Os ataques muitas vezes moralistas, bombardeam nossos televisores e até os sites de algumas emissoras, mostrando os podres tanto da Globo, como da Record. Só mesmo em um país como o Brasil, que quem deveria informar, banaliza e aliena, e quem deveria formar opiniões através de conceitos e parcialidade sobre fatos e notícias, estabelecem postulados como uma única verdade incontestável. Fato é que não existe maior controle de massas do que a mídia atual, e a censura e opressão constituem a falsa liberdade de expressão tão aclamada que dizemos ter, como se ainda estivessemos vivendo na ditadura. Didatura representada pela manipulação de opiniões e fatos. Em um duelo de gigantes como esse, o mais importante é esquecido: muita gente gosta de ter sua própria opinião e poscionamento principalmente em temas polêmicos como este. Nesta história não existe mocinho nem vilão, mas sim, o funeral da imparcialidade: Aqui Jaz.
Quem precisa de comédia quando se tem o Senado?
Recentemente, foi aprovado pelo Congresso, um novo vale: o vale cultura. Uma renda mensal para ser investida em livros, cinema e teatro. Mas acho que a medida deveria ser repensada. Ao invés de uma certa quantia destinada ao enriquecimento cultural, deveriam sortear ingressos para camarotes no Senado. Nosso poder legislativo é um verdadeiro show: mais selvagem do que No Limite, mais engraçado do que qualquer programa de humor, e mais rico em vocabulário do que qualquer Diogo Mainardi. Precisa de algo mais cultural do que isto? Seria uma ótima solução: ao invés dos “cangaceiros” gastarem seu precioso tempo inventando esquemas milionários para desvio de verba, embolsar o dinheiro diretamente seria muito mais prático. Certamente, o tempo livre seria muito bem aproveitado: faltaria o nariz de palhaço, e o circo estaria montado. O maior problema são mesmo os espectadores; até presidente tem no meio. Mas na verdade, ele só faz mesmo questão de marcar presença: não tem nada a ver com as escolhas que o povo faz, isso não é problema dele. Pois é, cada um tem o governo que merece. Palhaçadas à parte, enquanto as pessoas não enxergarem a piada que é a política nacional, o Congresso e o Senado vão continuar, entre uma viagem de Paris a Nova York (com o dinheiro público), rindo e aproveitando o descaso basileiro com seu próprio governo. Antes fosse uma piada ruim.





16 anos, estudante, mineira, fã de café, cinema e chocolate. Detalhista e observadora, pretendo mudar o mundo, mas ainda não descobri como.

